25 de Abril: memórias de um estrangeiro sobre a Revolução dos Cravos
Um testemunho real de um americano que viveu o 25 de Abril em Lisboa — entre silêncio, surpresa e História em movimento. || A real-life account of an American who experienced April 25th in Lisbon — between silence, surprise, and history unfolding.
No dia 25 de Abril de 1974, Portugal acordou diferente.
Aquilo que viria a ficar conhecido como a Revolução dos Cravos marcou o fim de décadas de ditadura e abriu caminho à democracia. Para muitos portugueses, esse dia é feito de memórias, histórias partilhadas e emoções que passam de geração em geração.
Mas há também quem tenha vivido esse momento histórico vindo de fora - com outros olhos, outras referências, e a surpresa de se encontrar no meio de algo que mudaria um país para sempre.
O texto que se segue é o testemunho de Jay, um cidadão americano que, aos 20 anos, chegou a Lisboa na véspera da revolução. Hoje, vive em Portugal com a sua mulher e está a aprender português, aprofundando a sua ligação ao país que marcou de forma tão inesperada o seu percurso.
Entre ruas quase silenciosas, vozes na rádio e uma cidade em suspenso, acompanhamos o seu percurso desde o Cais do Sodré até ao Largo do Carmo, onde a História se desenrolava diante dos seus olhos.
Décadas mais tarde, este relato é mais do que uma memória - é um olhar vivido sobre um dos dias mais marcantes da história portuguesa.
No início de Abril de 1974, saí de São Francisco com destino a Albufeira, em Portugal. Não era a minha primeira vez lá. Já tinha estado em Albufeira em 1970, quando era adolescente, depois de me juntar à minha família a meio de uma viagem longa por Espanha, Portugal e França.
Mas desta vez era diferente. Eu queria começar uma carreira como artista americano no estrangeiro. Tinha apenas 20 anos, mas já tinha viajado sozinho pela Europa. Em 1972, em vez de ir para a universidade, peguei na minha mochila cor de laranja e viajei durante oito meses pela Europa. Era uma Europa muito diferente da de hoje.
Em 1974, o meu objetivo era claro: pintar.
E que melhor lugar do que Albufeira? Na altura, era uma pequena vila de pescadores, numa zona do Algarve ainda pouco conhecida e pouco habitada.
Mas primeiro tinha de lá chegar. Voei de São Francisco para Amesterdão, depois fui de comboio até San Sebastián, no norte de Espanha. Continuei a viagem ao longo da costa até Vigo e, finalmente, cheguei ao Porto de comboio. Na altura, os estrangeiros chamavam-lhe “Oporto”. Pensávamos que “Porto” estava errado e juntávamos “o” ao nome. Hoje sei que não é assim.
Uma coisa importante: em 1974 não havia internet, nem telemóveis, nem computadores pessoais. Usávamos mapas em papel e guias de viagem. Para comunicar com a família, usávamos os escritórios da American Express nas grandes cidades. Dizíamos onde íamos estar para receber cartas. Por exemplo: “Mãe, vou estar em Lisboa no fim de Abril. Manda carta para lá… e dinheiro!”
Se queríamos telefonar, íamos aos correios. Fazíamos fila, preenchíamos um papel e esperávamos pela chamada, numa cabine telefónica. Às vezes funcionava, outras vezes não. Bastava a pessoa não estar em casa, não havia nada a fazer. Também não havia forma de nos ligarem de volta.
Viajar era mais aventureiro. Era possível desaparecer durante semanas ou meses. Às vezes só recebíamos notícias muito tarde. A Europa parecia mesmo muito longe.
As notícias em inglês eram raras. Havia um jornal, o Paris Herald Tribune, que chegava com alguns dias de atraso.
Depois de alguns dias no Porto, cheguei a Lisboa de comboio, à estação de Santa Apolónia, junto ao Tejo.
Era a tarde de 24 de Abril de 1974. Fui ao posto de turismo para pedir um mapa e encontrar um quarto. Na altura, estes postos eram muito importantes. Tinham listas em papel com os hotéis disponíveis.
Pedi o quarto privado mais barato no centro da cidade. Encontraram um pequeno hotel perto do Cais do Sodré. Hoje essa zona é muito bonita, mas na altura ainda não era assim.

Lisboa, em 1974, parecia uma cidade antiga e em decadência. Tinha um passado importante, mas isso não era muito visível. Havia sinais de desgaste e de poucos recursos.
O funcionário ligou para o hotel para confirmar o quarto, e fui até lá a pé.
O hotel já não existe hoje. Ficava na Rua de São Paulo.
O meu quarto era simples: uma cama, um lavatório e um roupeiro. A casa de banho era partilhada. Para mim, era quase um luxo. Só em Espanha e Portugal eu conseguia pagar um quarto privado. O meu orçamento era de 15 dólares por dia.
Depois de chegar, saí para jantar, beber vinho e, claro… procurar raparigas. Não sabia para onde ia, mas facilmente encontrei comida e vinho.
Depois de andar algum tempo, um jovem britânico começou a falar comigo. Disse que sabia onde encontrar “raparigas”. Fomos os dois à procura… mas sem sucesso. Depois de algum tempo (e algum vinho), percebi que não íamos encontrar mais nada. Despedi-me e voltei para o hotel.
Na manhã seguinte, acordei mais tarde do que queria. Mas notei logo uma coisa: o silêncio. Não havia carros. Não havia barulho. Só ouvia uma voz num rádio, em português.
Não percebia o que dizia, mas parecia importante.
Desci à receção. O funcionário disse-me que tinha começado uma revolução. Os bancos, as lojas e os serviços públicos estavam fechados, e os militares estavam nas ruas.
Era 25 de Abril de 1974.
Fiquei preocupado com o dinheiro. Não havia multibancos, e os cartões de crédito eram raros. Eu tinha alguns escudos, mas não sabia quanto tempo iam durar. No ano anterior, tinha ficado preso na Gran Canaria durante três meses: como tinha pouco dinheiro, vendi roupa e pedi ajuda a amigos. Até dormi debaixo de barcos!
Não queria repetir essa experiência.
Felizmente, tinha cheques de viagem. Lembrei-me de que alguns hotéis grandes podiam trocá-los. Fui até à Avenida da Liberdade e encontrei um hotel que aceitou, com uma taxa de 25%. Foi caro, mas necessário.
Depois voltei ao Cais do Sodré. Encontrei alguém que falava inglês e sabia o que se passava. Disse-me que Marcelo Caetano, sucessor de Salazar, estava no Largo do Carmo.
Sem juízo, pensei: “ótimo… alguma ação!”
Subi a Rua Poço dos Negros até à Calçada do Combro. A certa altura, ouvi o que pareciam tiros de metralhadora - muito altos e durante longos segundos. Senti muito medo e pensei que estava em perigo. Depois vi dois soldados numa varanda. Estavam a disparar.
Alívio. Não estavam a disparar contra mim - estavam a disparar por cima de mim.
“Não faz mal…”, penso agora com a distância dos anos.
Continuei até à Praça Luís de Camões e segui a multidão até ao Largo do Carmo. O largo estava cheio. Alguns homens tinham subido às árvores para ver melhor. Encontrei um lugar perto das cabines telefónicas e fiquei a observar.

E depois esperámos.
E esperámos mais.
A História, afinal, pode ser bastante aborrecida.
Começou a ficar frio. As nuvens chegaram pelo Tejo. Pensei em ir embora, comer qualquer coisa quente - talvez uma imperial e uma tosta mista… Mas, resolvi ficar.
E então, de repente, a multidão gritou.
Um grupo de homens saiu de um edifício, a rodear alguém. Moviam-se juntos para proteger essa pessoa. Levaram-na até um carro. A multidão tentou aproximar-se, mas tudo aconteceu muito rápido. O carro partiu.
E assim, acabou.
Marcelo Caetano tinha partido. Uma ditadura de décadas terminava com pouca violência.
Depois do 25 de Abril, passei mais duas semanas em Lisboa, para conhecer melhor a cidade.
Hoje vejo muitas diferenças. As pessoas parecem mais felizes, mais saudáveis e até mais altas! Também vejo muito mais mulheres, agora mais activas em todas as áreas da sociedade.
Em 1974, Portugal parecia mais tradicional e menos livre. As pessoas pareciam mais fechadas, talvez até tristes. Hoje não é assim.
Há outras diferenças. Hoje, as pessoas vestem-se de forma mais internacional. Antes, cada país tinha o seu estilo. Era fácil ver quem era estrangeiro.
A comida também mudou. Na altura, quase não havia fast food nem comida internacional. O que hoje chamamos comida tradicional portuguesa era simplesmente o que se comia todos os dias. O frango piri-piri, lembro-me, não era tão picante… mas talvez seja só a minha memória.

Depois de Lisboa, fiquei vários meses em Albufeira, antes de ir para Marrocos e depois regressar aos Estados Unidos.
Valorizo muito o tempo que passei no Algarve, porque o conheci antes de ser transformado pelo turismo. Isso aconteceu em muitos lugares. Na minha opinião, enquanto Lisboa melhorou muito ao longo dos últimos cinquenta anos, o mesmo não posso dizer de Albufeira e de partes do Algarve, que foram profundamente alteradas pela sua popularidade.
E talvez seja assim que a História se torna mais próxima - quando a vivemos pelos olhos de quem lá esteve.
Muito obrigada, Jay!