A Procissão ao Mar e os tapetes de flores

A 20 de agosto, Nossa Senhora da Agonia desce ao rio Lima entre cem barcos, e a Ribeira de Viana acorda coberta de tapetes de sal e flores. || On 20 August, Our Lady of Agony sails down the River Lima among a hundred boats, as Viana's Ribeira wakes carpeted in salt and flowers.

A Procissão ao Mar e os tapetes de flores

Hoje é o dia mais esperado da Romaria de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Depois de vários dias de festa, chega o momento mais bonito e emocionante de todos: a Procissão ao Mar. É um dia em que a fé, o mar e as flores se juntam para encher a cidade de emoção.

Para compreender esta procissão, temos de recuar no tempo e lembrar quem é Nossa Senhora da Agonia — e porque é tão amada pelas gentes de Viana.

A Senhora dos pescadores

Viana do Castelo é, desde sempre, uma cidade ligada ao mar. Durante séculos, os seus homens partiam de barco para pescar, muitas vezes durante dias, longe da família. O mar dava o pão, mas também era perigoso: nem todos regressavam a casa.

Por isso, os pescadores e as suas famílias escolheram uma protectora: Nossa Senhora da Agonia. A ela pediam protecção antes de cada viagem e a ela agradeciam cada regresso em segurança. Aos poucos, esta devoção cresceu e tornou-se a maior festa da cidade. Hoje, a Romaria da Agonia é conhecida como a "rainha das romarias" de Portugal.

A procissão que vai ao rio

O ponto alto acontece a 20 de agosto, todos os anos. A imagem de Nossa Senhora da Agonia sai da sua igreja e é levada, com muito respeito, até ao rio Lima, junto ao mar.

Ali, espera-a um espectáculo impressionante. Mais de cem barcos, enfeitados com flores e bandeiras, juntam-se na água. São barcos de pesca e barcos de recreio, todos ali para acompanhar a Senhora. Nas margens, milhares de pessoas assistem em silêncio, ou acenam com emoção.

Com a imagem no meio deles, os barcos parecem abençoar o rio e o mar — aquele mesmo mar que deu vida e medo a tantas gerações. É um momento simples, mas profundamente belo, em que a cidade inteira olha para a água.

Ruas cobertas de sal e de flores

Mas a Procissão ao Mar tem outro grande protagonista: as ruas. No bairro da Ribeira, o antigo bairro dos pescadores, acontece uma das tradições mais bonitas de toda a festa.

Na noite anterior, de 19 para 20 de agosto, os moradores quase não dormem. Passam a noite a cobrir o chão das ruas com desenhos feitos de sal colorido e de pétalas de flores. São os famosos tapetes floridos.

O trabalho é enorme. Para cobrir as ruas da Ribeira, são precisas dezenas de toneladas de sal, pintado à mão em muitas cores diferentes. Os desenhos são preparados com meses de antecedência. De manhã, quando o sol nasce, as ruas aparecem transformadas num verdadeiro tapete de cores — e milhares de visitantes vêm admirá-las.

Fé, mar e beleza

O mais bonito vem no fim. Segundo a tradição, a imagem da Senhora, ao regressar da procissão, passa por cima destes tapetes de flores. Os pescadores, vestidos com as suas camisas de xadrez, transportam os andores pelas ruas da Ribeira, acompanhados pelas mulheres. Debaixo dos seus pés ficam as flores e o sal, feitos com tanto amor durante a noite.

Assim se fecha o dia mais especial da Romaria da Agonia. Num só lugar juntam-se as três coisas que fazem a alma de Viana: a fé antiga dos pescadores, a força do mar e a beleza feita à mão pela sua gente.

No fim, a Senhora volta à sua igreja, e a cidade guarda mais um ano de memórias. Mas todos sabem que, no próximo verão, o rio, os barcos e as flores de sal vão voltar a encontrar-se — como acontece há muitas gerações, sempre a 20 de agosto.

Fonte: d'Agonia e Câmara Municipal de Viana


Glossário

  • romaria — festa religiosa popular, com procissão.
  • procissão — desfile religioso em que se leva a imagem de um santo pelas ruas.
  • pescador — homem que pesca no mar para viver.
  • protectora — aquela que protege e defende alguém.
  • devoção — amor e respeito profundos por uma figura religiosa.
  • imagem — aqui, a estátua de uma santa ou de um santo.
  • margem — a beira do rio ou do mar.
  • andor — espécie de mesa alta em que se transporta a imagem de um santo.
  • pétala — cada uma das folhas coloridas e macias de uma flor.
  • xadrez — padrão feito de quadrados de duas cores.

Perguntas de compreensão

  1. Porque é que os pescadores de Viana escolheram Nossa Senhora da Agonia como protectora?
  2. O que acontece à imagem da Senhora no dia 20 de agosto?
  3. Como é que os barcos participam na procissão?
  4. Como e quando se fazem os tapetes floridos?
  5. Segundo a tradição, o que acontece aos tapetes no fim da procissão?

Curiosidade

Apesar de parecer antiquíssima, a Procissão ao Mar é, na verdade, uma das partes mais recentes da festa: só se realiza todos os anos desde 1968. A Romaria da Agonia, essa, tem raízes no século XV. Ou seja, algumas tradições que hoje nos parecem eternas nasceram, afinal, há relativamente pouco tempo.


Nota de gramática

Para falar do futuro, o Português usa muitas vezes o verbo ir + outro verbo no infinitivo. É o chamado futuro próximo:

  • O rio e as flores vão voltar no próximo verão.
  • Amanhã vou visitar Viana.
  • Nós vamos ver a procissão.

Conjuga-se apenas o verbo ir (vou, vais, vai, vamos, vão) e o segundo verbo fica sempre no infinitivo. É a forma mais simples e comum de falar daquilo que ainda vai acontecer.